Álbum “Magnético” e Memórias Perdidas

Essa é uma tradução livre e adaptada (e resumida) de um artigo muito importante sobre conservação de fotos… E quando falamos de conservação de fotos, falamos de conservação de memórias de uma família, de um povo, de uma cultura e de uma nação! De utilidade pública, recomendo que passem para frente. Segue link para post original do NYTimes.

MEMÓRIAS PERDIDAS: ÁLBUMS DETERIORAM FOTOS

Triste realidade: O álbum de fotos, armazém para as memórias preciosas, muitas vezes danificam as imagens que detém.

Tradução livre: Scrapper Samantha / Original text by GLENN COLLINS, Published: October 3, 1987

Os materiais dos álbuns importados, e de muitos álbuns comprados no passado, podem criar um ambiente hostil para as impressões fotográficas, conforme demonstra a seguinte pesquisa que apresento abaixo. Em risco estão fotografias em preto e branco e os instantâneos a cores que documentaram a vida de muitas pessoas durante as últimas quatro décadas.

“Uma parte essencial de muitas famílias está em perigo de se perder, e até hoje poucos são conscientes disso”, disse James M. Reilly, diretor do Instituto de Permanência de Imagem do Instituto de Tecnologia de Rochester.

“As pessoas pensam que, colocando estes tesouros da família em um álbum, eles estão sendo preservados para sempre, para serem passados para as gerações futuras”, disse Judith Fortson, o oficial de conservação da Instituição Hoover da Universidade de Stanford, na Califórnia. “No entanto, em muitos casos, esses álbuns estão ajudando a acelerar a sua deterioração.”

Em alguns álbuns, “fotografias são arruinadas muito mais rapidamente do que seria se você apenas deixasse-as em uma caixa de sapato”, disse Douglas Severson, um conservador no Instituto de Arte de Chicago. Ele é presidente do grupo de fotografia do Instituto Americano para a Conservação, a organização nacional dos conservadores e pesquisadores profissionais.

A situação é cada vez mais grave, disse Reilly, “porque os materiais dos álbuns de fotografia estão ficando mais e mais baratos”, como esses comercializados pelas lojas de importados tipo ‘1,99’.

As áreas de armazenamento para álbuns de muitas famílias – sótãos e porões – estão aumentando o problema, disse o Sr. Severson, uma vez as imagens podem se danificar quando expostas ao calor, umidade e grandes flutuações na temperatura.

Uma pesquisa mais recente do Instituto Rochester mostra que “o nível de danos a partir de materiais de má qualidade é muito pior do que imaginávamos”, disse Reilly.

Pior Tipo de Álbum

O pior tipo de álbum, dizem os conservadores, é o mais comum de todos: o chamado álbum “magnético”. Ele não tem nenhum ímã, mas as suas páginas de cartão aderem às fotografias sobre um revestimento adesivo pegajoso e as fotos são cobertas por uma camada de plástico, que é puxada para trás para posicionar as fotografias. (Acredito que todos têm pelo menos um desses álbuns em casa)

Nesses álbuns, “o papel de baixa qualidade desprende peróxidos que causam a coloração amarela na parte branca das impressões, tanto nos impressões a preto e branco quanto nos coloridos”, disse Reilly.

A cobertura plástica pode ser prejudicial não só porque veda completamente a fotografia com o papelão, mas porque o plástico em si emite gases que atacam imagens fotográficas.

“Somente certos plásticos são considerados seguros, e esse não é o tipo que você encontra nos álbuns mais baratos”, disse Reilly. Os melhores materiais plásticos são de poliéster, polietileno, polipropileno, e tri acetato de Tyvek.

Além disso, o Sr. Severson disse que “as tiras de material adesivo podem ser devastadoras para fotografias, transferindo-se para a impressão.” A Senhora Fortson explicou que, eventualmente, se forma um vínculo entre o adesivo e a fotografia, “no qual você não pode tirar a foto do adesivo sem destruí-la.”

Isto não significa que o único tipo nocivo do álbum seja o chamado “magnético”. Reilly disse que “o papel de fundo da cor preta que foi usado em muitos álbuns mais antigos” é o pior. Esse papel emitia gases oxidantes que atacam as imagens das fotos”

Ácidos utilizados na fabricação de papel, muitas vezes colocam fotografias em perigo não só a partir da ação química de páginas de álbuns nas impressões, mas a partir do efeito desintegrador que têm sobre as páginas.

“Em alguns álbuns antigos as páginas viraram, literalmente, pó”, disse Reilly.

Nocivos, também, eram o cimento de borracha, os diversos tipos de cola, inclusive de origem animal, usados nos antigos álbuns de scrapbook, como também as cantoneiras de montagem de fotos. A maioria dos álbuns de fotos de 1940 e anteriores, contendo imagens em preto e branco, “mostram evidências de danos causados pelos materiais do álbum ou da montagem, se você olhar com cuidado”, disse Reilly.

A maioria das fotos hoje é em cores. Atualmente, mais de 90 por cento dos 14 bilhões de fotografias tiradas nos Estados Unidos a cada ano são em cores. Aqueles que cresceram durante a proliferação quase universal do instantâneo a cor pertencem à era mais fotograficamente documentada na história. (Esse dado é anterior ao acesso às câmeras digitais, smartphones etc.) No entanto, o Sr. Severson disse: “Os pais dessa geração terão um registro muito mais durável, uma vez que suas fotos de infância foram tiradas inteiramente em filme preto e branco”, que tem imagens mais estáveis.

“É muito raro encontrar impressões a cores dos anos 50 e 60, que não pareçam profundamente alteradas,” disse ele. “Neste momento, a herança visual de uma geração está sendo perdida. Estas são as pessoas em seus meados dos 30 anos de idade (de novo, esse artigo é de 1987 logo as pessoas agora estão com uns 60 anos de idade), cujas imagens de infância foram tomadas nos anos 50 e 60.”

Alguns fabricantes de álbuns neste país dizem que agora estão usando materiais que não vão danificar fotografias.

“De oito anos pra cá já não usamos plástico não PVC”, disse John W. Brooks Jr., presidente da Companhia Holson em Wilton, Connecticut – a maior fabricante de álbum americana, responsável por 30 por cento do mercado dos Estados Unidos. O senhor Brooks refere-se aos plásticos de cloreto de polivinil, que causam danos irreversíveis às impressões.

Um porta-voz da Eastman Kodak Company, em Rochester, Henry Kaska, disse que os álbuns de fotos da Kodak “possuem os componentes testados e são aceitáveis para o armazenamento de imagens.”

Arquivos de Qualidade têm um custo

Os fabricantes especializados, que fornecem materiais de arquivo com qualidade para bibliotecas entre outras instituições de preservação, afirmam que os seus álbuns são feitos com papel, plásticos, adesivos e materiais de ligação (binding) que prejudicarão as fotos o mínimo possível. Estes álbuns custavam em 1987 entre USD 30 e USD 50, em comparação com os USD 2 a USD 15 dos álbuns vendidos nas lojas de departamento e em lojas populares, que não são de qualidade para arquivo. Imagino que hoje, com a inflação, esses álbuns estariam a um preço superior a R$ 200.

“Nós não acreditamos que você pode produzir um álbum verdadeiramente seguro para arquivo, incluindo as páginas, por menos de USD 30 e USD 40” disse John Boral, vice-presidente da University Products Inc. de Holyoke, Massachusetts.

O negócio está crescendo, agora, para esses fabricantes. “Temos visto um aumento dramático no interesse de pessoas físicas sobre os nossos álbuns de fotos”, disse Dennis Inch, vice-presidente da Light Impressions, um fabricante de Rochester.

Ajudando o ‘Arquivista da Família’

Muitos conservadores estão buscando passar informações importantes, através de palestras e seminários, sobre a possibilidade de danos a álbuns para o “arquivista da família”, ou seja, “a pessoa que, na maioria das famílias, se encarrega de manter um registro de família, coleciona fotos e atualiza a árvore genealógica,” disse Reilly.

Aqueles que procuram preservar suas fotos também estão fazendo um favor aos historiadores, disse Fortson.

“Fotografias aparentemente comuns podem ser muito importantes, de extensão desconhecida para essas pessoas”, disse ela. “Os historiadores têm usado extensivamente fotografias para documentar uma cultura – para determinar coisas como estilos de roupas e os interiores e exteriores das casas.”